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Jornal Taperá (24.03.2004)

Entrevista com Neusa Garcia Romero

  (Associação de Amparo aos Animais de Pequeno Porte de salto)

""Cuidar dos animais é uma questão de cidadania e de saúde pública""

Apresentação:

Neusa Romero, 61 anos, advogada e presidente da Associação de Amparo aos Animais de Pequeno Porte de Salto, cita um grande pensador da humanidade para justificar o trabalho da entidade, dizendo que é possível avaliar o grau de desenvolvimento de uma sociedade através do tratamento que dispensa aos animais. "Nosso serviço está no mesmo patamar realizado pela Corbes e pela Corpus, pois ao tirarmos os cães da ruas estamos deixando salto mais limpa e diminuindo os riscos de transmissão de doenças para os seres humanos", justifica.

E ela fala aqui do trabalho da entidade.

 

JQ - O que levou a senhora a lidar com a questão dos animais em Salto?

Neusa - Eu estava envolvida com o turismo rural, que estava sendo criado em Salto. Eu e meu marido estávamos criando estatutos e participando das reuniões, um dos maiores problemas era sempre o grande número de cães abandonados na zona rural de salto. Isso, para o turismo, atrapalhava muito, pois assustava animais e pessoas. Fui ver o que era preciso pra resolver o problema, tentei encontrar o Centro de Zoonose em Salto e este não existia. achei apenas a Associação de Proteção aos Animais de Pequeno Porte. Comecei a me aprofundar e vi que a solução para o problema era a castração em massa dos cães, conforme recomenda a Organização Mundial da saúde e outras entidades ligadas aos animais. Mas eu encontrei barreiras pra concretizar essa necessidade. Então, eu e a Terezinha Coraine vendíamos desinfetantes e bordados e, com o dinheiro, pagávamos as castrações. Diante dos resultados, a associação se interessou e acabei entrando na mesma.

JQ - É caro fazer a castração de um animal?

Neusa - É, pois usamos materiais de primeira: fios de crill, que dispensa a retirada dos pontos. É uma microcirurgia, que maltrata pouco o animal, mas a medicação é cara, como anestesia e outros produtos.

JQ - Sabemos que existe muita discriminação contra as pessoas que lutam em favor dos animais. Por que a senhora escolheu lutar por essa causa?

Neusa - Além de São Francisco de Assis, que defendeu os animais, e Leonardo da Vinci, outros grandes homens, como Mahatma Ghandi, lembravam que a questão dos animais era uma questão de cidadania. A grandeza de um povo pode ser medida pela forma com que ele trata os animais. Hoje, após quatro anos, é possível perceber que o número de animais soltos nas ruas diminuiu muito. Trabalhamos bastante com as cadelas no cio, castrando-as para evitar novas ninhadas. Outro ponto positivo é que aumentou muito a procura por filhotes em salto. Acredito que nosso trabalho contribui para melhorar a cidade. Animais soltos nas ruas passa a impressão de cidade suja e relaxada. É horrível chegar em um município e ver muitos cães pelas ruas, cadelas no cio sendo perseguidas por dezenas de cachorros, e cães famintos na porta de restaurantes. Esse trabalho é igual ao da Corbes, da Corpus: limpar a cidade e tornar seu aspecto melhor. Além de limpar as ruas, é uma questão de saúde pública, pois esses animais transmitem inúmeras doenças para os seres humanos, como a sarna, a micose, a raiva, a cólera e a leishmaniose. Eles adquirem essas doenças e as repassas aos seres humanos ou a outros animais. Temos tirado da rua esse problema.

JQ - A presença de cães abandonados é um problema que ainda preocupa?

Neusa - Ainda é um problema que preocupa e que vai existir por muito tempo. Hoje recebi um telefonema de uma pessoa que queria doar sua cadela para o canil, mas temos um limite e evitamos receber todos para não tornar impossível a administração. A pessoa disse que estava mudando e não queria soltar o cão na rua. " se vocês não pegarem, vou soltar na rua", disse-me. Isso será sempre comum.

JQ - Há quanto tempo dirige a entidade? Quantas pessoas integram a entidade?

Neusa - Na entidade somos apenas seis que atuam com mais força. É curioso que a maioria delas tem acima de 50 anos. A mais nova possui 40 anos. Estamos numa idade que não era para termos um trabalho tão intenso, mas faltam jovens para integrar a associação. Acredito que isso ocorra porque o jovem não tem tempo, pois trabalha e estuda, e a entidade exige dedicação intensa. Por outro lado, estamos conseguindo aumentar a aceitação da entidade junto á população saltense. Digo isso pelo número de sócios que temos, com cerca de 360 pessoas que contribuem mensalmente dentro de suas possibilidades. Eles recebem todo mês o balancete dos trabalhos realizados.

JQ - Quem quiser conhecer ou colaborar com a entidade?

Neusa - Basta entrar em contato com alguma integrante e se inteirar do que pode fazer, como arrecadar fundos, realizar eventos, como o chá da tarde, jantares, venda de rifas ou trabalhar diretamente com os animais. Aos sábados fazemos um mutirão no canil para fiscalizar os cães e ver se tem algum animal doente, com berne, carrapatos, etc. Durante a semana precisamos de pessoas para ir ao canil, para dar comida aos cães ou medicá-los.

JQ - A associação tem uma sede?

Neusa - Esse é nosso principal problema. Não temos uma sede, apenas o canil, que fica numa região afastada do centro. Não divulgamos o endereço para evitar que soltem animais na porta. Mesmo sem divulgar, é comum encontrarmos cães lá.

JQ - Quantos cães estão abrigados atualmente no canil?

Neusa - Temos cerca de 100 cachorros. Mas já chegamos a ter em torno de 170.

JQ - Fica caro manter esses animais?

Neusa - Mesmo com toda política intensa de economia de custos, podemos dizer que é muito caro. Procuramos intercalar as refeições com ração e alimentos, como arroz, carne e cenoura, o que diminui os custos. Essa comida é feita diariamente lá.

JQ - E qual é o procedimento para adotar um animal?

Neusa -  è só nos procurar e se informar. Pedimos que nos procure pessoalmente, porque os telefones que temos são pessoais. Outro procedimento é nos procurar nas feiras e eventos que realizamos, como às margens da rodovia castelo Branco. Antes, doávamos os animais no Pesqueiro do maeda, mas começamos a receber animais, ao invés de doar. As doações na castelo são uma forma de tirar um pouco dos animais de Salto. Estamos percebendo o aumento de procura por animais filhotes. Agora estamos doando animais na Agropet, no bairro da estação.

JQ - As agressões cometidas contra os animais ainda ocorrem muito em salto?

Neusa - Sim. Ocorrem sempre casos de pessoas que matam cães á pauladas, ou animais que foram esfaqueados. recentemente um cão foi esfaqueado. Cuidamos do animal, o castramos e o filho da pessoa que fez isso vai adotá-lo. Em salto é comum as pessoas balearem seus cães ou jogarem tijolos neles. Na semana passada, uma cachorra teve a coluna quebrada por um pedaço enorme de concreto, e teve que ser sacrificada. Mas esse tipo de sacrifício deveria ser feito pela zoonose. Não é nosso papel fazer a eutanásia.

JQ - Quantos cães existem em salto?

Neusa - Acreditamos que existem cerca de 17 mil cachorros em Salto, conforme levantamento feito há alguns meses. Acredito que essa população está sob controle.

JQ - No canil, a entidade mantém apenas cães vira-latas ou de raças também?

Neusa - temos cães de todas as raças. Até um filhote de um cão cujo valor é de quase  R$ 2 mil deixaram em nosso canil.

JQ - Quais foram os objetivos da reunião realizada na terça-feira?

Neusa - Veja só: Na semana passada nos ligaram para avisar que tinha um cão no meio de um córrego. Isso não é responsabilidade nossa e sim dos bombeiros. Não temos obrigação, nem meios para tirá-lo do rio. A reunião visava encontrar definições do papel de cada entidade em salto. Que, deve agir em caso de cão que agride as pessoas nas ruas? Não somos nós, nem os Bombeiros e sim a zoonose. Usamos a reunião de ontem para discutir o papel de cada um: dos bombeiros, da GCM, da prefeitura, etc. O CAIC está sofrendo com a infestação de pombos, que estão retransmitindo piolhos para as crianças. Mas essa função não é nossa. Uma empresa nos ligou dizendo que uma árvore caiu e que nela tinha um ninho com três filhotes de tucanos. Quem deve agir? E no caso do circo que queria abandonar dois leões em Salto, na região do São Judas? Eles acabaram abandonando os bichos em Sumaré. Quem seriam os responsáveis caso eles fosse abandonados em salto. Queremos reuniões para saber quem é  responsável pelo que.

Reportagem de Nelson Lisboa

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