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HOJE É O MEU
DIA!
Sou aquele que te recebe com um afago e lambe
tuas feridas, sem mesmo perguntar se és um
assassino ou mesmo como te machucaste a este
ponto...
Sou aquele que vive nas matas ou na parede de
tua casa se preocupando somente em equilibrar os
sistemas de vida do qual tu dependes para
sobreviver...
Sou aquele que carrega o peso do teu corpo ou
mesmo quinquilharias para tu venderes em troca
do pão de cada dia...
Sou aquele que se esfrega em tuas pernas
saudando tua existência, e espanta ratos,
baratas, mau-olhado somente para que tu tenhas
melhores condições de saúde...
Sou aquele que rouba um sorriso de teus lábios
quando me vês fazer piruetas ou equilibrar o
peso do meu corpo em troca do preço de um
ingresso que vai para o bolso do meu dono...
Sou aquele que entre grades do Zoológico te faz
pensar o quanto vale a liberdade de viver no
habitat que nasceste...
Sou aquele que serve de atração turística em
praças fazendo tu sentires o prazer de
alimentar-me que retribuo com revoadas de
alegria...
Sou aquele servido em travessas, panelas e
espeto que, ainda pouco, escolhestes no balcão
do mercado ou no cardápio do restaurante para,
simplesmente, saciar tua fome...
Sou aquele que amarrado em mesas cirúrgicas,
trancafiado em gaiolas ou mesmo contido em
aparelhos de tortura se submete a teus
experimentos para alcançares a falsa fama e o
poder...
MESMO SENDO AQUELE QUE TE PROPORCIONA TANTO,
Tu me desprezas, me tratas com indiferença, me
abandonas nas ruas, me deixas com fome e se
desfaz de mim porque envelheci... perdes assim a
chance de exercitar teu amor
Tu me caças, me matas dizendo ter medo da minha
pele gelada e destróis todas as formas de
sobrevivência... assim, vives perdendo a chance
de ver as cores da vida, pois sou a vida em
movimento vivo
Tu me açoitas, me impõe peso maior que posso
carregar e me suplicias nos rodeios para
ganhares algum dinheiro... mal sabes o mau que
faz, não fazendo de mim um companheiro de tua
solidão
Tu me expulsas das praças, das ruas, das vielas
só porque tenho no olhar um jeito de ser que
nunca vais dominar, e que, realmente,não desejas
entender... perdes a chance de conhecer-te e
respeitar teu semelhante
Tua ris de minha humilhação por ficar exposto em
picadeiros fazendo acreditares que és poderoso e
que teu chicote domina minha paciência e minha
ferocidade... perdes muito ao não poder ver tua
cara de prazer doentio com um certo sorriso de
sadismo
Tu atiras em minha jaula gargalhadas e gritos
não só para mostrar tua falsa liberdade, como
também, para me provocares a morte com o tédio e
a lembrança dos lugares de onde vim... perdes
tanto ao não me visitares no mundo em que nasci
Tu me acusas de te provocar doenças só porque
não consegues aceitar minhas asas e a
possibilidade de trazer um ramo de oliveira no
bico, anunciando uma nova terra... perdes o rumo
do teu barco só porque negas que tenho o segredo
da vida
Tu me abates com degola, com marreta, me
empurras para morte com choques... perdes a
chance de um viver sadio, pois o veneno de minha
carne putrefa em teu corpo levando o
desequilíbrio de tuas funções
Tu não se apiedas do meu sofrimento mesmo
sabendo ser inútil testares em mim o que é bom
p’ra ti, porque, somos tão diferentes... perdes
a oportunidade de evoluir a ciência de que
necessitas para tua cura
Mas tu não deves entristecer, pois um dia
retornarás ao teu planeta e, como conquistador,
levarás até alguns de nós para exibir ao teu
povo. Só que, enquanto não chega o dia que
conhecerás o Deus que tanto tu proclamas, nos
deixa em paz, ou então, aprende em nós o saber
viver em harmonia
Sheila Moura
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